quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Não sabemos por que

Falta-nos certeza
do pousar da borboleta
ao dente-de-leão que fragmenta-se
do entardecer que vira noite e a perder-se em breu
quando acordamos e vencemos a semana, o dia, a hora 
ao confrontar o espelho e não conciliar-se com o que se vê
Falta-se nos certeza e afogando-nos em dúvidas, seguimos ásperos
já não aspirarmos as flores, por temer as abelhas e nos privamos dos perfumes
e assim, não completamente, sem entrega, sem paixão, sem decisão: vamos vivendo em vão...




sábado, 17 de outubro de 2015

Fogo fátuo

O amor não é um pássaro rebelde que nada pode domar.
Só uma ilusão criada de luzes e cores chamativas
Bem vindo ao espetáculo do convencionamento lateral
ponham suas máscaras e prepare-se
os pavões da arrogância  estão por toda parte a te assolar

"L'oiseau que tu croyais surprendre
Battit de l'aile et s'envola"

Não há mais porque perguntar-se
Quando o amarei, se serei correspondido
Melhor perguntar, porque o amar hoje ou amanhã
Talvez nunca, eu não sei, só não mais
Só sei que penso: proteja-se, a nada te levarás!

"Nella tua fredda stanza
Guardi le stelle
Che tremano d'amore
E di speranza"

No teatro apotéotico dessa nossa contemporâneidade
ao passo do enganador ao enganador
levanto e chamo:  lena e coraggio!!
É dia de deixar e luto e reduto
Hoje, não me chames, não me iludas


"Ah! Libiam, amor, fra' calici più caldi baci avrà?"
Não obrigada, passo. 







quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Reporte estas linhas

Na noite que vai alcançando seu ápice
na semana que vai convertendo-se 
em horas arrastadas, inúteis
colido com a página branca,
limpa e insólita

e vem surgindo...
tal ânsia involuntária, 
o revirar de sensações estranhas
vertendo-se a ansiedade revolta 
do não escrever ou padecer no ócio

salvar-me do conflito indecoroso 
do verso não começado
da revolta perceptiva em torno 
do parágrafo incompleto
nesse diálogo mudo e imperativo, 

Escrever para sentir,
onde já não me alcançam mais
escrever para salvar-me
do que me fere pontualmente
no plano irreal
do nada dizer e tudo emergir

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Je suis attiré par vous

Ternamente chamo seu nome
embevecida no meu reduto mental,
canto em poesia, essa minha prece 
tecida em teus lábios

Envolta no balsamo refinado
em teu toque
me refugio na lembrança sutil
dos seus braços

Assim, componho brevemente,
esperando que faça da minha pele tua tela
tracejando e rascunhando esse afeto
com o dedilhar delicado que aguardo

No desejo decantado na espera que conservas
Essa atração cujo contorno esta a ser esboçado
nas confissões inacabadas não finalizadas
daquela que aqui escreve, enamorada



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Brevemente envolvida

Ressentida,
Falarás pelo seu olhar
e na ausência de palavras, 
e nos gestos contidos e expressos
Não serás ouvida, permanecerás contida

Silenciosa,
Tentarás alcançar
sussurrando ao vento que lhe conte, 
o quanto queria que o outro, viesse até si
Ainda sim, não fosses acolhida

Solitária, 
Atravesso outubro rubro, num lar calado
desnuda nesse leito parado
Introvertida, abstida, um tanto quanto pervertida 
certamente, ávida e agora, Assentida, 

Desnecessariamente,
apaixonada
ou  meramente, talvez
encantada 
mas jamais em essência,
submetida, 
ou mesmo, nem um tanto
diminuída
Plena e Nítida
poética e 
viva. 










domingo, 4 de outubro de 2015

A distância entre um par

Dizem que a menor distância possível entre dois pontos é um reta. 
Lógica interessante essa, não?
E a menor distância entre duas pessoas? acho que a resposta básica para essa questão está contida em uma única palavra: Vontade.

Não importam afinidades, fluências verbais, atração física avassaladora ou oportunidades, não há forma da distância entre duas pessoas ser vencida, que não pela vontade real de ir além dela. Duas pessoas podem querer-se muito por toda sua vida e jamais estarem juntas, porque nenhuma deu o primeiro passo. Ou pior ainda, sempre haverá aquele que verá uma pessoa de modo especial,  mas pelo medo de apegar-se toma curvas e curvas, envolve-se em outros casos e acaba por evitar o contato, a afeição e a presença com quem, no fundo, gostaria de compartilhar. 

Vejo um monte de artigos que nomeiam os relacionamentos relâmpagos atuais como "casos miojo", onde ninguém se aprofunda, realmente se liga. Tudo é inconstante, perene, frágil. E ao menor sinal de um "peixe mais atraente na rede", cultivam-se desaparecimentos, frases monossilábicas e términos repentinos. As pessoas não cultivam mais certas emoções e sensações, ora por receio, mas em grande parte dos casos por falta de vontade. Preferem gastar horas no whats trocando de paquera em paquera e não fixar-se em ninguém, flertar quando já estão com alguém que, em tese, gostam. Trair como se fosse algo natural. 

Nessas horas, me sinto estranha. Esse mundo e essa lógica contemporânea de relacionar-se não me soa atraente. Ela me soa superficial e irritante. Como dezenas de outras coisas que acontecem por ai e todo mundo acha convencional e normal. O cenário moderno, por vezes me encanta, por vezes me alarma. Ver pessoas na rua preferindo tirar fotos de uma pessoa acidentada, ao invés de ajudá-la me causa repulsa. A forma como as pessoas mentem, tal qual como respiram, me da vontade de vomitar. 

Voltando a nossa reta e os dois personagens dessa história. Sim, eu ainda sonho com flores e mensagens de bom dia e boa noite. Com gargalhadas trocadas e manhãs compartilhadas. E talvez um dia, entrar de branco, verde, azul ou qualquer que seja a cor em direção a quem eu vá me casar. Porque ainda acredito em relacionamentos duradouros. Porque ainda acredito em todas as formas possíveis de apoiar-se e de criar-se uma família. 


Boa semana a todos ;**




sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Une histoire

Na beira da estrada, declama a bruxa anciã aos passantes:

Tolo é aquele que busca saciar sua sede em um poço estéril 
onde a terra a sua volta já não floresce
onde a água já não flui ou preenche as mãos que a buscam
só corações frios, outrora pulsantes
que afogam-se e se calam diante de um fundo turvo

Aproxima-se ludibriado 
certo espírito sedento
e ao ver a ilusória taça de afeto ofertada
logrado seguindo a quimera ao poço árido, 
sem esmero ou estima
prontamente enfeitiçado

Boca seca, verso curto 
sem grande ânimo ou contento 
no limiar tímido do silêncio
onde irrompem-se as gargalhadas 
no vazio onde a bruxa perdeu tua ternura

Agora repouso e escrevo, 
na cavidade em pedra e fundura
e as palavras dela ainda ressoam
junto ao feitiço da minha ardilosa quimera 
astuciosa fora ela 
que aqui me deixastes e partiu enaltecida?
ou perdeu-se tanto a ponto de eternamente inverídica se tornar?